Muito já foi dito, debatido e discutido sobre Across the Sea. Rolaram até algumas discussões acaloradas. Eu resolvi meter minha mão nesta cumbuca, correndo o risco de me dizerem que eu “não entendi”, porque eu não consigo ficar quieta vendo as manifestações do que eu acho que são dois extremos, muito como Jacob e o Men in Black: aqueles que gostam de Lost e ponto, não questionam nada, e aqueles que questionam tudo e não param para pensar no que viram.
Meu problema com a sexta temporada de Lost não é a história. O misticismo, a magia, a mitologia da ilha não me incomodam em nada, porque desde sempre Lost para mim foi sobre o embate entre ciência e fé, um assunto que me interessa. Não tem como ficar surpreso ao ver magia em Across the Sea, ela está com a gente desde o primeiro episódio.
O que está me incomodando nesta temporada são algumas escolhas de roteiro que me “tiram” da história. Isso estava relativamente ok no início, quando Lindelof e Cuse ainda estavam armando o cenário. Mas agora, aos 45 do segundo tempo, é difícil de aceitar.
Exemplo: toda a sequência do roubo do Submarino em The Candidate. Qual foi a da bomba? Se eu não entendi, alguém me explique, por favor, mas vejam o que eu peguei do plano do Flocke:
- Se a Kate não levasse um tiro, eles não encontrariam a bomba tão cedo;
- Se eles não encontrassem a bomba, ela não explodiria, eles iriam embora e o Flocke ficaria na ilha;
- Se eles encontrassem a bomba e acreditassem no Jack, ela não explodiria, eles iriam embora e o Flocke ficaria na ilha;
- Se eles encontrassem a bomba 1min30s depois, ela não explodiria, eles iriam embora e o Flocke ficaria na ilha.
Só aí, acho que já é muito “se” para um plano, não? A menos que, como eu li em uma crítica, o Flocke soubesse que tudo aconteceria exatamente da maneira que aconteceu. Afinal, como soubemos no último episódio, ele é especial.
Em Across the Sea eu tive o mesmo problema. Pensando na história, estava tudo ali: a fé e o questionamento, as consequências da fé cega, o início do jogo entre Jacob e seu irmão, o motivo pelo qual estamos assistindo esta série há seis anos. O episódio teve até direta dos produtores: “Every question I answer will simply lead to another question. You should rest. Just be grateful you’re alive.”
Mas aí, no meio do caminho, tem as cenas que me tiram do momento. Como quando a Mother vai confrontar o MiB na câmara da roda, e ele dá esta explicação para o que está fazendo: “It’s a wheel…We’re going to make an opening…one much bigger than this one; and, then I’m going to attach that wheel to a system we’re building. A system that channels the water and the light. And then I’m gonna turn it. And when I do…I’ll finally be able to leave this place”… WHAT?
Água? Roda? Luz? WTF? Eu já vi aquela roda funcionando, alguém me explica como eles fizeram aquilo com água, uma roda e um “sistema”? Eu sei que vai ter gente falando que isso é só um detalhe, que não importa no todo. Mas são justamente estes detalhes que, quando eu vejo, me tiram completamente do esquema. Outra: a cena em que o MiB acorda e encontra sua escavação soterrada e sua aldeia dizimada. A Mother fez tudo aquilo sozinha? Ela era um monstro de fumaça? Não parece, já que ela não estava morta. Isto importa no final? Provavelmente não, mas se eu estou assistindo o episódio e me pergunto um “como” para um detalhe banal como este, isto me incomoda. Me tira do clima.
O final do episódio, então, foi a coisa mais esdrúxula que já vi nesta série, e é de Lost que estamos falando aqui. Depois de seis anos nos tratando como espectadores inteligentes, explicando tramas de maneira orgânica, nos dando aqueles ótimos momentos de “ah! então é isso!”, Lindelof e Cuse – logo eles! - resolveram que somos todos estúpidos e colocaram aquele inacreditável flashback para a 1a. temporada para explicar Adão e Eva. Não lembro disso ter acontecido em nenhum outro momento na série. Por que agora? Por que este mistério especificamente? E por que em um momento em que tudo era tão óbvio? Qual fã de longa data de Lost não sacou exatamente o que iria acontecer antes mesmo de Jacob guardar as pedras? Enfim, balde de água fria.
Across the Sea confirmou, para mim, a idéia de que a ilha é como o Jardim do Éden. Um lugar divino que guarda os segredos da criação e, especialmente, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Aquela que era proibida para o homem, mas da qual ele come o fruto de qualquer maneira, desafiando e questionando a autoridade de Deus em troca de ser igual a ele. Seu destino, a expulsão do Éden, pode ser considerado pior que a morte. O conhecimento é algo ruim para o homem, mas quanto mais ele tem, mais ele quer. O questionamento e a ganância levam à expulsão do paraíso, mas a fé cega também tem consequências ruins. A Dharma Initiative foi para a ilha em busca de conhecimento e foi massacrada; John Locke nunca perdeu sua fé na ilha e foi assassinado. Onde está o balanço?
Na construção do mito, das metáforas, Damon Lindelof e Carlton Cuse são perfeitos. O subtexto em Lost é tão complexo que eu admito que não consigo acompanhar, já que escolhi não mergulhar de cabeça e manter a série como uma experiência de 42 minutos semanais. Talvez por isso não esteja tão empolgada quanto muitos que eu conheço que estudaram a série e seus temas a fundo nestes seis anos, ou não consiga sublimar coisas como a explicação da roda. Estou zen com esse final, acho que a série continua a mesma de sempre, mas essas escolhas, momentos em que você lembra que apesar de toda a subjetividade, Lost também tem um lado objetivo que às vezes é deixado de lado (olha o embate aí de novo), me deixam desapontada e certa de que terei uma decepção no final.